Ela é Poderosa: Josi Helena de Souza, do canal Negra Vaidosa

Hoje tem estreia no blog Calcinha Rosa-Choque! É a coluna Ela é Poderosa, onde uma mulher empoderada é entrevistada por duas convidadas. Para começar, convidamos a maquiadora Gabriela Alana Dantas e a jornalista e artesã Tais Oliveira para entrevistar Josi Helena de Souza, cabeleireira e maquiadora especializada em beleza negra que está a frente da fan page e do canal Negra Vaidosa.

Seguida por mais de 13 mil pessoas no Facebook e por mais de 16 mil no YouTube, Josi Helena é muito mais que uma digital influencer que usa a internet para dar dicas de beleza. Para mulheres negras como ela Josi é um símbolo de resistência contra a imposição dos padrões de beleza eurocêntricos.

Josi Helena de Souza Negra Vaidosa (2)
Crédito: Divulgação/Fábio Palombino

“Me expor na internet sempre teve um propósito: empoderar mulheres negras. Sei que alcanço meu objetivo cada vez que recebo um comentário de uma mulher negra me agradecendo. Isso não tem preço”, explica a profissional que parou de alisar o próprio cabelo e o de suas clientes ao se dar conta que seu trabalho incentivava mulheres a se exporem aos perigos do formol simplesmente para se adequarem ao padrão do cabelo liso.

“Só nós, mulheres negras, sabemos o quanto é difícil estar na nossa pele, por isso, para mim é uma missão apoiá-las como eu puder”, enfatiza Josi, que se pudesse encontrar pessoalmente cada uma de suas seguidoras negras, diria para que tenham muito amo-próprio, que tenham resiliência para enxergarem a beleza que existe nelas e para que não acreditem em revistas de beleza que não colocam mulheres negras na capa.

Entrevistada por Gabriela e Tais, duas mulheres negras, Josi conta um pouco da sua história e comenta a posição da mulher negra em uma sociedade que superestima pele clara e cabelo liso. No “pingue-pongue” abaixo, as meninas levantam assuntos importantes, como representatividade, desconstrução dos padrões de beleza e a pouca disponibilidade de cosméticos específicos para cabelo afro e pele negra.

“Em um país onde, de acordo com o IBGE, 54% da população é formada por negros e pardos, esta indústria tem deixado muito a desejar. Além de faltar produtos específicos para o cabelo afro e maquiagem destinada exclusivamente à pele negra, faltam profissionais qualificados que saibam lidar com este tipo de cabelo e maquiagem”, pontua Josi que estuda Estética e Cosmética para, futuramente, prestar consultoria sobre seu cabelo e tipo de pele. “As marcas terão que se comunicar conosco para desenvolver produtos específicos para nossa pele e nosso cabelo. Eu quero estar pronta para este momento”, conta.

Josi Helena Souza Cabeleireira e Maquiadora Especializada em Beleza Negra
Crédito: Divulgação/Fábio Palombino

Gabriela Alana Dantas – Como aconteceu para você ser maquiadora? O foco em pele negra já era algo que você tinha em mente no inicio ou, com o tempo, você percebeu a importância de se especializar? E como você chegou onde está sendo educadora nos cursos de maquiagem?

Josi Helena de Souza: Comecei a atuar na área como assistente de cabeleireiro. Foi uma consequência natural ir pra maquiagem, já que um serviço agrega ao outro. Por eu ser negra as pessoas me procuravam para falar sobre a maquiagem em pele negra e foi aí que decidi falar especificamente sobre, já que é uma grande deficiência do mercado. Ensinar nos cursos não foi planejado, veio da necessidade mesmo.

Gabriela Alana Dantas – Existe a procura pelo aperfeiçoamento em pele negra por profissionais não negros? Você acha que hoje em dia os profissionais estão mais interessados em atender e entender a pele negra e os diferentes tons de pele negra?

Josi Helena de Souza: O movimento de inclusão está em TODAS as áreas hoje em dia e foi o mercado de beleza que impulsionou isso, especialmente o de cabelos. Os maquiadores estão se vendo obrigados a procurar esse aperfeiçoamento. Ainda está no começo, mas já esta acontecendo.

Gabriela Alana Dantas – Você acha que deve levar a discussão do colorismo inclusive para sala de aula quando falamos de maquiagem para pele negra, especialmente para pele retinta?

Josi Helena de Souza: Com certeza! O colorismo é uma assunto sério e urgente que prejudica muita gente e é tabu, inclusive entre nós negros. É inegável que negros de pele clara e cabelo cacheado ( mais próximo do padrão imposto ) são favorecidos .

Gabriela Alana Dantas – Você encontra dificuldade para atender clientes não negros justamente por ter enfase na sua especialização em pele negra?

Josi Helena de Souza: Não, até porque não iniciei minha carreira com esse foco. Foi uma decisão motivada pela procura que eu recebia para falar sobre o assunto, já que por ser negra as pessoas deduziam que eu sabia maquiar bem uma pele negra.

Gabriela Alana Dantas – Hoje em dia nós vemos marcas internacionais como Fenty By Rihanna, Nars, MAC, NYX, Black Opal, Klesme, Maybeline entre outras muitas com uma gama grande de tons de base, indo desde as muito claras até as mais escuras, algumas marcas chegam a 40 tons de base, outras 30, 20. Você sendo maquiadora e educadora com o foco de maquiagem para pele negra acha que está faltando o que exatamente para as marcas brasileiras e até algumas marcas internacionais atenderem as tonalidades de base para pele negra das brasileiras?

Josi Helena de Souza: A variedade de tons das negras brasileiras é muito peculiar devido a grande mistura étnica. Falta para as marcas, tanto nacionais como internacionais, levarem essa particularidade em consideração ao criarem seus produtos. Essa variação não está relacionada só as cores, mas também a estrutura fisiológica da pele, que interfere diretamente na eficiência do produto.

Gabriela Alana Dantas – Hoje em dia o contorno e iluminação tomou conta do mercado de maquiagem, essa tendencia funciona para todos os tipos de pele negra?

Josi Helena de Souza: Eu, como mulher negra feminista, não apoio e não ensino nada que “modifique” para incluir em um padrão. Abomino contornos no nariz por exemplo – já que é uma característica marcante da nossa etnia ter o nariz largo. Acho que hoje em dia se confunde maquiagem social com artística. Técnicas pesadas de luz e sombra sempre foram usadas no teatro – especialmente pelas drags – e de repente trouxeram para maquiagem social, que tem como função o embelezamento e não a modificação. Acho que menos é mais, especialmente se tratando de maquiagem social.

Gabriela Alana Dantas – De aluns anos pra cá a questão da transição capilar virou uma tendência muito forte entre as mulheres negras, tanto cacheadas quanto crespas, houve um entendimento da questão do auto-ódio e do embranquecimento da população negra brasileira. O que você acha da cobrança da militância negra em cima de pessoas negras que optam por alisar seus cabelos e ou usar perucas e apliques de texturas diferentes de seus cabelos naturais?

Josi Helena de Souza: Acho que a “cobrança” tem mais a ver com a falta de informação. Quando se entende como foi construído o padrão de beleza imposto, dificilmente a pessoa quer continuar compactuando com o sistema opressor. Eu fazia parte desse sistema, porque vendia e ensinava a fazer alisamentos. Senti que seria contraditório da minha parte continuar com isso. Mas reconheço que existem pessoas que são desconstruídas (ou estão nesse processo) e continuam a alisar os seus cabelos (minhas duas irmãs são um exemplo disso) e o fazem de maneira muito consciente. Entendem absolutamente todos os contras e apoiam quem assume seus cabelos naturais. O grande problema está em quem nega a si próprio para continuar a se adequar ao padrão e se incomoda com quem aponta essa construção.

Gabriela Alana Dantas – Você como Youtuber, que fala de colorismo, estética negra, diferença de textura do cabelo crespo, acha que ainda falta representatividade para pessoas negras retintas e de cabelo tipo 4C no YouTube? Você acha que isso ainda pode mudar?

Josi Helena de Souza: Falta muita representatividade. Quanto mais distante do padrão eurocêntrico menos se torna “interessante” para o público, que mesmo sendo retinto e crespo continua acompanhando a menina de pele clara e cacheada, e o contrário não acontece. Essas meninas se desmotivam a permanecer na plataforma, porque veem seu crescimento estagnado e, então, desistem. As empresas também contribuem para isso, pois não se interessam em contratar meninas retintas e crespas pra representarem suas marcas.

Gabriela Alana Dantas – Josi, como você incentivou suas clientes a assumirem e a amarem seus cabelos naturais na fase em que parou de fazer alisamento em você e nos clientes?

Josi Helena de Souza: Comecei a dividir minha vivência nesse período. Indicar textos, filmes e influenciadoras que tinham os cabelos parecidos com os meus. A desconstrução da pessoa é individual e pessoal. Cada um tem o seu tempo. Mas eu sei a influência de ver alguém parecida com você e que tenha a auto estima elevada e seja segura de si. Representatividade realmente importa!

Gabriela Alana Dantas – Você acha que a transição capilar acaba no Big Chop?

Josi Helena de Souza: De maneira alguma, para a maioria é aí que começa a verdadeira mudança. A redescoberta de quem se é de verdade. Na verdade, não é só sobre o cabelo, é muito mais complexo. Por isso é tão revolucionário esse movimento de auto-aceitação e afirmação. Elas literalmente se tornam outras pessoas depois que assumem seus cabelos. É necessário muita coragem para ir contra o que foi imposto por tanto tempo.

Gabriela Alana Dantas – Como foi sua transição? Quando seu cabelo estava totalmente sem química, como foi olhar a Josi de cabelo natural pela primeira vez?

Josi Helena de Souza: Eu me senti entremente corajosa e realizada. Sei da importância que isso vai ter na vida da minha sobrinha de três anos, da minha prima de dez anos, e de tantas outras que virão depois delas. Elas se sentirão muito mais fortes e seguras, além de saberem que são capazes de qualquer coisa. Pois saberão que sua estética não é impedimento para nada, pelo contrário, é motivo de orgulho.

Josi Helena de Souza é entrevistada pelo blog Calcinha Rosa-Choque
Crédito: Divulgação/Fábio Palombino

Tais Oliveira – Outro dia andando aqui pela quebrada onde moro, uma menina me parou e logo veio pegar em meu cabelo e disse que queria muito que o dela voltasse a ter cachos (ela havia cortado bem curtinho, porque estava caindo muito com sucessivas progressivas). Fui para casa pensando naquela cena e então percebi como sou uma referência para aquela menina e fiquei buscando na minha infância/adolescência quais foram minhas referências de “mulheres negras com cabelos crespos e lindas”, e não encontrei. Como foi sua infância/adolescência nessa questão de referências? E como é hoje se ver como uma referência para tantas meninas negras?

Josi Helena de Souza: Na minha infância não conhecia nenhuma mulher com o cabelo crespo natural. Na minha família todas estavam sempre alisando os cabelos, então, o meu maior desejo era chegar logo a idade que minha mãe deixaria de fazer as malditas tranças (o que era motivo de muito choro todo domingo a tarde) para alisar o meu cabelo. Eu me sinto realizada ao perceber que impacto de alguma maneira positivamente na vidas das pessoas.

Tais Oliveira – De repente temos os cachos em alta, claro que sabemos que isso não se deu de maneira repentina, mas também devido a uma forte apropriação da indústria cosméticas que notou o potencial de mercado nesse nicho, e partiu para cima. Mas tenho visto muitas dessas apropriações, muitas indevidas (nos cremes não tem fotos de mulheres negras como tem de mulheres com outros tipos de cabelos). Como você enxerga essa questão dos “cachos estarem na moda”, a impressão que tenho é de que ainda não é algo verdadeiro essa aceitação, pois não acontece o mesmo com os cabelos crespos sem cachos (que não se enquadram nessa curvatura dos cachos, que vêm nos cremes), “cacho tá na moda”, mas o quanto dessa moda está sendo de empoderamento das meninas e mulheres negras, e quanto disso é só moda mesmo, como algo que passa. O que você pensa sobre esse cenário atual da aceitação dos cachos, e essas apropriações indevidas?

Josi Helena de Souza: A apropriação das marcas é algo que realmente me incomoda. Algumas se colocam no lugar de libertadoras das crespas e cacheadas, quando na verdade, ela mesma lucrou anos vendendo alisamentos. Usam “receitas” que nós criamos para cuidar do nosso cabelo porque nunca se interessaram e fazer isso. Para mim, isso é falta de caráter e eu observo muito a postura de uma marca antes de consumir qualquer produto dela. É fato que o novo padrão é o “cacho”, que ainda é próximo do padrão eurocêntrico . Essa “aceitação” do cabelo natural (seja a curvatura que for) está longe de ser real. Ainda temos muito pela frente.

Tais Oliveira – Como você orienta uma mulher negra que está nesse processo de fazer progressivas/alisamentos e não consegue ainda perceber a beleza de seus cabelos naturais?

Josi Helena de Souza: Indico textos, documentários e influenciadoras negras e crespas. Informação é poder e um caminho sem volta!

Tais Oliveira – Tive muitos problemas na adolescência para aceitar meu cabelo, sempre o deixava preso e na minha família não tinha incentivo, pois minhas referências eram de mulheres de cabelos alisados. Lembro muito de ir com minha mãe e minha tia no salão para alisar os cabelos. Era a forma que elas encontravam de se sentir felizes e com a auto-estima super alta, pois acabavam os apelidos pejorativos por causa do volume de seus cabelos. Fui entender e aceitar meu cabelo da forma que ele é depois de adulta, longe da minha família. Como foi seu processo de aceitação do seu cabelo? Você teve apoio da sua família? Como conseguiu lidar com seu próprio psicológico?

Josi Helena de Souza: Eu sempre tive uma personalidade questionadora. Meu primeiro Big Chop foi em 2002 (já fiz três!) e, naquela época, nem se sonhava com o advento da internet. Fui muito criticada, especialmente pela família, mas isso não me abalou, pois já estava acostumada a ser a pessoa que saía sempre da linha e não seguia padrões. Eu não tive dificuldade em perceber a beleza do meu cabelo, porque sempre busquei referências. A primeira foi a cantora Negra Li, que foi capa da extinta Revista Raça no inicio de carreira com o seu black power totalmente natural. Aquela foto foi o meu start.

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